Fernando CelinoEscritor e Jornalista

Caneta de pena

Entre letras e histórias: o mundo da escrita e edição

Dê uma pausa para leitura e transforme suas ideias em textos eloquentesAqui você encontra ficção de entretenimento e conta com serviços editoriais de excelência

Aspas

A escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida.

A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz.

Você pode, você deve e, se tomar coragem para começar, você vai. Escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.

Beba até ficar saciado.

Stephen King, em seu livro "Sobre a escrita"

E assim, meu autor preferido me convenceu a escrever - e a me enriquecer.

Que o meu trabalho possa enriquecer a sua vida também!

Fernando Celino

Sobre mim

Conforme o domínio deste site já te contou, eu me chamo Fernando Celino e sou um carioca que não suporta calor. Gosto de esportes, filmes e séries, mas o que eu amo mesmo é o Flamengo, leitura e escrita, hábitos que cultivei desde cedo. Lembro de textos meus sendo elogiados por professores no ensino fundamental, e também ganhei um concurso de redação no ensino médio. Não é nada, não é nada... não é nada! Mas foi o suficiente para me indicar que eu queria ser escritor.

Em algum momento que não sei precisar, mas provavelmente no período do vestibular (e não do Enem, o que denuncia que eu já passei um pouco dos 40, rs...), acabei internalizando a ideia de que era inviável viver de escrita no Brasil – o que hoje entendo como uma "quase verdade". Desse modo, após estudar Letras – Português/Espanhol por um ano, me graduei em uma área onde, em minha concepção à época, poderia escrever e sobreviver: Jornalismo. Com o tempo, porém, compreendi que o trabalho (e o texto) jornalístico clássico não era o que de fato me realizava, e sim redigir meus contos, novelas, romances e o que mais minha cabeça permitisse colocar no papel.

Há quase duas décadas, então, passei a atuar em ramos correlatos que me davam mais prazer, como assessoria de imprensa/comunicação, revisão, copidesque, edição e produção de textos – e, se você precisar, dê uma olhada em como posso lhe ajudar no menu Serviços. Paralelamente, busquei ampliar os meus conhecimentos por meio de cursos em outras áreas, como animação digital em 3D, onde o que mais me interessou foi criar os roteiros das histórias, e radiologia, na qual a disciplina que me dei melhor foi português (!), obtendo média 10. Ou seja, tudo sempre me remeteu à escrita.

Assim, durante a pandemia, decidi me render à paixão e voltei a escrever ficção por hobby, mas apostando no sonho de que um dia minhas histórias fossem lidas e beneficiassem as pessoas com entretenimento e uma boa mensagem. Em 2024, tal sonho começou a se tornar realidade: publiquei o meu primeiro livro, A Pequena Morte, uma novela policial com doses de suspense e ação, que pode ser adquirido nos formatos físico e digital. Mas se antes você quiser conhecer um pouco da minha escrita gratuitamente, leia alguns textos de minha autoria os quais disponibilizo no menu Minhas Histórias.

Seja por meio de uma prestação de serviço ou de alguma das minhas criações literárias, ficarei muito feliz e satisfeito caso eu consiga atender às suas expectativas. Por isso, estou sempre à disposição para receber os seus comentários por meio dos meus contatos. Seja bem-vindo(a)!

Serviços

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Revisão de Textos

Revisão e Edição

"O editor sempre tem razão". Como escritor de extremo sucesso, Stephen King não precisava ter pronunciado essa frase. Mas, se o fez, é porque mesmo um autor multipremiado como ele reconhece a importância do olhar de fora, distanciado e não viciado de quem não escreveu determinado texto, sobretudo alguém com experiência na área da escrita.

A língua portuguesa é belíssima, porém repleta de regras não conhecidas por boa parte dos falantes do idioma. Não à toa, essa disciplina normalmente é a que mais elimina em concursos. Não há dúvida também de que um texto desleixado, com falhas de concordância, erros gramaticais e estilísticos, causa péssima impressão no leitor, em alguns casos até o induzindo a equívocos de interpretação em relação àquilo que se quis comunicar. E mesmo com as novas tecnologias, não dá para confiar plenamente em corretores automáticos, os quais diversas vezes interferem de forma errada até em textos que anteriormente estavam corretos, como vemos nos aplicativos de mensagens.

O nosso serviço de revisão e edição não somente resolve os problemas de quem tem insegurança quanto à correção do que se escreveu, mas também possui o diferencial de sugerir melhorias quando enxergamos a necessidade. É o chamado “copidesque”, onde, além de retificarmos erros ortográficos, de pontuação e de digitação, avaliamos a coesão e a coerência do texto como um todo, buscando formas de aperfeiçoá-lo sempre que cabível.

Muitas vezes o sentido de certas passagens está claro na mente de quem as escreveu, pois foi a própria pessoa que produziu aquele raciocínio. Entretanto, nem sempre a mensagem está compreensível o suficiente para todos os leitores. Quando observamos casos desse tipo, não apenas apontamos como reescrevemos aquele trecho específico de forma mais fluida, e então sugerimos a alteração para o autor, que irá adotá-la ou não, conforme sua vontade.

Contando com quase 20 anos de experiência em serviços editoriais, aceitamos todo e qualquer tipo de texto para revisão, análise e correção, como livros, artigos, resenhas, trabalhos acadêmicos, monografias, projetos de TCC (graduação e pós-graduação) e de inserção em mestrado e doutorado, dissertações, teses etc. Se você escreveu, seja o que for, e deseja ficar tranquilo quanto à clareza e apuro do texto, basta nos enviar!

Confira alguns livros que já revisamos para as editoras Via Escrita e Qualitymark (selo Azaan):

Capa do livro 3 em 1 Os Desafios do Triathlon
Capa do livro Edvaldo Bala Valério
Capa do Livro Acaso e Destino
Capa do Livro Alma Carioca
Capa do Livro Anos 70 Diário de Um MOrador do Vidigal
Capa do livro Capoeiragem Carioca
Capa do livro Ensinamentos Islâmicos
Capa do livro Os Maiores Defensores do Futebol
Capa do livro Paixão Uma Viagem Pelo Futebol Inglês
Capa do livro Quando o Futebol Não é Apenas um Jogo
Capa do livro Já Vai Tarde Coração
Capa do livro Destino do Futebol Europeu
Capa do livro Memórias do Esporte
Capa do livro Memórias do Esporte Perivaldo
Capa do livro Memórias do Esporte Dequinha
Produção de Textos

Produção de Textos

A escrita é um dos sistemas de comunicação mais antigos do mundo. Para utilizá-lo, basta saber o código no qual se deseja expressar e registrá-lo em um suporte, a fim de que a mensagem seja decodificada por outrem. Portanto, escrever breves palavras com o mero intuito de comunicar algo, sobretudo em situações informais, é um exercício relativamente simples e comum.

Mas não são todas as pessoas que têm facilidade em produzir textos mais longos e complexos. Em muitos casos, precisamos discorrer sobre determinado assunto com fluidez e elegância, redigindo as ideias com clareza suficiente para sermos compreendidos por qualquer destinatário.

Para cumprir essa função, e assim evitar tempo perdido diante da tela em branco com o cursor piscando, existem os escritores profissionais! Se você precisa produzir conteúdo textual de forma geral, como para sites, blogs e/ou redes sociais, conte conosco para ajudá-lo.

Roteiro

Roteiro

Se a sua empresa produz vídeos institucionais ou para redes sociais, se você é um youtuber ou simplesmente precisa organizar a exposição de ideias ao público em geral, como em apresentações e palestras, o nosso serviço de produção de roteiros pode ajudar. Muitas pessoas nessas situações até possuem a(s) ideia(s) principal(is) na cabeça, mas têm dificuldades para transformá-la(s) em um conteúdo atrativo, informativo e, ao mesmo tempo, acessível a todos os públicos. Nesses casos, o profissional da escrita busca entender com o cliente o propósito da mensagem a ser alcançado e monta o “passo a passo” a ser seguido por ele em sua produção.

Criamos roteiros dos mais diversos, desde esquetes humorísticos até campanhas empresariais. Consulte-nos enviando um briefing, a fim de que possamos avaliar o seu projeto. Como sempre, será um prazer para nós!

Transcrição

Transcrição

Se você precisa transformar o conteúdo de qualquer áudio em texto, fale conosco. Isso vale também para quaisquer vídeos onde seja necessário que toda a parte falada precise constar em legendas.

Sabemos que existem softwares que realizam essa tarefa. No entanto, invariavelmente os textos saem com erros, alguns deles graves, o que depõe contra o trabalho que está sendo realizado.

Isso acontece, entre outros fatores, porque em muitas ocasiões as pessoas falam rápido, além de utilizarem expressões e formas de comunicação típicas da linguagem coloquial, dificultando a captação correta do que é dito.

Então se você produz vídeos, sejam eles institucionais ou para redes sociais e demais plataformas, e deseja contar com legendas que contenham textos escritos de modo confiável, invista em um trabalho de transcrição qualificado.

Digitação e Data Entry

Digitação e Data Entry

Precisando digitar documentos e/ou organizar informações e arquivos em um sistema ou banco de dados? Deixa com a gente!

Muitas pessoas não têm tempo – nem paciência – para tarefas burocráticas ou metódicas, mas em certos casos elas são necessárias para manter a ordem, o fluxo e o funcionamento do trabalho.

Assim, se você precisa passar dados escritos para um computador, ou se já tem informações digitalizadas que precisam de determinada organização ou padronização, conte com o nosso serviço de digitação e data entry (entrada de dados).

Tradução

Tradução

O uso de tradutores automáticos via internet está bastante difundido já há muitos anos. Certamente, para uma busca de significados básicos no dia a dia, onde se deseja entender o sentido de uma palavra ou de algumas breves sentenças, eles fornecem uma boa ajuda. Porém, quando precisamos traduzir textos formais, livros, trabalhos acadêmicos etc., é fundamental que a tarefa seja efetuada por um profissional da área.

Faça o teste: selecione algum texto relativamente grande, em qualquer idioma, e coloque para traduzir em português. Observe a quantidade de passagens mal redigidas, sem concordância, conjugações verbais equivocadas e até mesmo frases sem sentido. Qualquer falante daquela língua para a qual o texto foi traduzido percebe que foi utilizado um tradutor automático, e que este não fez o trabalho corretamente.

Contamos com uma equipe de profissionais graduados em Letras e com experiência em tradução entre os idiomas português e inglês. Se você precisa traduzir qualquer texto de uma dessas línguas para a outra, basta entrar em contato conosco.

Depoimentos

Conheço o Fernando há muitos anos. É um profissional dedicado, organizado e talentoso, além de ótimo parceiro de trabalho.

Na revisão, destaca-se pela disposição em buscar constantes melhorias para o texto, indo além do esperado. Como escritor, seus pensamentos são expressos com clareza, demonstrando domínio da gramática e uma escolha precisa das palavras.

Sua habilidade em estruturar ideias, construir frases fluidas e usar uma linguagem envolvente é notável, o que o torna capaz de prender a atenção do leitor de forma eficaz

Carlos Monteiro, fundador e editor da Via Escrita Editora

Minhas Histórias

Leia gratuitamente algumas histórias curtas de minha autoria. Espero que goste!

Ilustração de Só em Goiás

Discussões modernas

Discussões modernas

A conversa se dava por um famoso aplicativo de mensagens instantâneas via celular. Seus personagens eram Patrícia e Germano, jovem casal de namorados que estava junto há 7 anos. O assunto? Uma interminável DR... Eis a transcrição do debate.

– Não, Germano, chega. Assim não dá mais, é melhor a gente dar um tempo. 😡

– Que tempo, amor, quem dá tempo é relógio, e eu não aguento nem um minuto sem você. 😍

– Deixe de história, frase feita, clichê, isso aí é letra de música. Cachorro, nem pra tentar limpar a sua barra consegue me agradar de forma original! 😤

– Que barra, amor, eu não fiz nada! Até agora não entendi porque tá tão chateada assim comigo. 😔

– Esse é o problema, Germano. Você nunca me entende. NUNCA! Eu falo que você está distante de mim, que não me dá atenção, que só quer saber dos amigos e de futebol. E o que você faz? Nada, nem sequer compreende o que eu falo... 😭

– Patrícia, eu...

– Não me chama de Patrícia! 😡😤

– Ué, quer que eu chame de quê?

– De amor...

– Mas você não tá terminando comigo?

– Ah, então já quer terminar mesmo, né? Tá vendo como você nem liga? Não tá nem aí mesmo pra mim... 😭😡😤

– Mas foi você que falou! 😩

– Eu disse dar um tempo, não terminar! Será que é tão difícil de entender, Germano! 😢

– Ah, e você pode me chamar de Germano, né?

– Eu posso...

– Por que você pode e eu não?

– Porque sou eu que estou chateada, então tenho prerrogativas.

Já viu alguém chateado com alguém chamar esse alguém de nome carinhoso?

– Não...

– Então pronto. E não mude de assunto, o ponto aqui é que você está no erro e tem que se redimir, senão é melhor a gente dar um tempo mesmo...

– Me redimir como, amorzinho? ❣️

– Também não precisa exagerar, hein? Tô te dando esporro e você vem com papo de amorzinho? Soa forçado, e você sabe que eu não suporto falsidade. 😡

– Tá bom, amor. Desculpa. O que eu posso fazer então pra você me perdoar? 🙂

– Hum... Assim é melhor. Bom, você pode começar tentando me dar mais atenção, ficar mais tempo comigo, se aproximar mais de mim. 😌

– Ótima ideia, amor. 😀 Então por favor, destranca a porta do quarto e vamos dormir de conchinha, estou morrendo de sono... 😴

Ilustração de Versões

Apressada

Apressada

– Oieee! Tudo bem, amore???

– E aí?

– Aqui tudo bem, graças a Deus. Trabalhei muito hoje, nossa... Saí seis da manhã e só voltei mais de dez da noite, hoje é o dia que mais tenho aulas na faculdade. Tô morta com farofa! Tava tão cansada do trabalho que apaguei no segundo tempo da aula. Fiquei lá, com a cabeça abaixada na carteira, morgando... Na hora do intervalo, a Larissa me acordou e ficou me zoando que eu tava até babando, hahaha... E vc, amoreee, como foi seu dia?

(...)

– Amore? Ricardo???

– Oi

– Tô falando contigo, por que não me responde?

– Ah, foi mal. Meu dia foi tranquilo.

– Só isso?

– Só isso o quê?

– Pô, eu tô falando de mim, vc não se interessa e nem fala de vc...

– Foi mal, já disse. É que tô fazendo outra parada aqui...

– Tá falando com quem aí?

– Com ninguém.

– Como com ninguém, que outra "parada" é essa que vc tá fazendo?

– Nada, nada...

– Quem nada é peixe, desembucha!

– É particular!

– Ah, é particular? Já tem segredo entre a gente, é? Achei que vc gostasse de mim, ontem mesmo vc se declarou todo e agora taí, me ignorando... E me traindo!

– Que traindo, de onde vc tirou isso?

– Olha, Ricardo, vc precisa decidir o que quer da vida. A conversa que a gente teve ontem foi tão forte, tão bonita, eu senti tanta firmeza na nossa relação que hoje eu tava nas nuvens. Apesar de ter sido um dia difícil, como tava te contando, eu tava mto feliz pq percebi que podemos nos amar de verdade. Aí eu chego em casa, toda animada pra falar com vc aqui no zap, e, além de não me dar atenção, vc fica aí conversando com outras!

(...)

– RICARDOOOOOOOOOOOOO!!!!

– Oi

– Oi o que, criatura?! De novo me deixando no vácuo!

– Foi mal, Carolina...

– É CAROLINE! Olha, assim não dá mais, viu... Eu sinto muito, vc é um cara mto legal, uma das pessoas mais especiais que já conheci, mas pelo jeito vc é mto infantil, incapaz até de acertar o meu NOME! Definitivamente vc não tá preparado para um relacionamento sério. É melhor a gente terminar tudo e ficar com as lembranças, foi bom enquanto durou!

– Terminar tudo o quê? A gente se conheceu ontem no Tinder!

E assim, Caroline bloqueou Ricardo e nunca chegou a vê-lo pessoalmente.

Ilustração de Versões

Vazio profundo

Vazio profundo

Clara e Vinícius estão sentados no sofá de casa. Ela de um lado, mexendo no celular, ele do outro, zapeando a TV. E havia também um elefante invisível entre os dois. O marido tentou quebrar o gelo.

– Quer ver alguma coisa?

– Hã?

– Na TV.

– O que tem?

– Quer assistir algo?

– Não.

A esposa apenas passava o feed do Instagram sem prestar atenção em nada. Ele já havia ido e voltado no seletor de canais por três vezes, mas nem sabia o que estava passando em nenhum deles.

– Quer conversar?

– Sobre?

– Qualquer coisa.

– Não.

– O que você tem?

– Eu? Nada.

– Tem certeza, Clara?

– Uhum.

– Hum...

– Hum o quê?

– Nada.

– Hum...

Apenas cinco minutos se passaram, mas o silêncio que se perpetuou fez com que esse curto espaço de tempo parecesse uma eternidade. Aquele clima doía fundo na alma de Vinícius, que, roendo as unhas, tentou novamente.

– Se abre comigo, Clara.

A resposta dela foi uma lágrima, que escorreu solitária de seu olho direito.

– Por que você tá assim?

Ela deu de ombros:

– Você deveria saber.

– Não sei.

– Então taí o problema.

– Não sou vidente, droga!

– Então vou ser mais clara.

– Até que enfim, Clara!

Vinícius desligou a TV e virou-se para a esposa, esperançoso, completando:

– O que você quer, Clara?

Ela jogou o celular de lado e, encarando-o, disse finalmente:

– O divórcio, claro!

Ilustração de Versões

A foto

A foto

Durante a arrumação de um armário, em uma daquelas prateleiras de cima que nunca acessamos, encontrei um antigo álbum de família. Cansado como estava, achei um bom pretexto para dar uma pausa e comecei a folheá-lo, apesar de já ter visto aquelas fotos dezenas de vezes. Quando já estava terminando, conformando-me em retornar à faxina, bati o olho em uma imagem de minha infância, a qual sempre me foi muito querida. Nunca parei para pensar no porquê de gostar tanto daquela fotografia, mas naquele momento resolvi investigar – e procrastinar a limpeza.

A imagem amarelada e o formato quadrado, em vez do tradicional 10x15, além das extremidades arredondadas, denunciavam que o fato ali mostrado tinha mais de 30 anos. Na foto, apenas dois personagens: eu e meu pai. Estávamos em um gramado no Alto da Boa Vista. A minha versão menino de aproximadamente três anos segurava uma bola e corria com ela, enquanto meu pai aparecia de frente para mim, com os braços estendidos para os lados em posição de goleiro. Ele sorria, visivelmente feliz por ver em mim a alegria genuína que jogar bola com meu pai me proporcionava.

Jogar bola, nesse caso, talvez seja apenas uma expressão. Primeiro porque eu passava mais tempo com ela nas mãos do que nos pés. Segundo, porque mesmo quando eu a colocava no chão – ou a deixava cair involuntariamente – e tentava chutá-la, ela saía com pouca força de meus pés e mal chegava à baliza improvisada com dois chinelos. Isso quando eu não me empolgava demais e, tentando correr conduzindo a pelota com os pés, tropeçava sozinho e caía. Nesses momentos meu pai ria a valer, não tanto pela comicidade da cena, mas sim para que eu entendesse que não tinha sido nada, e que não precisava chorar. Quase sempre funcionava, e apesar dos joelhos ralados e ardendo, lá estava eu rindo com ele. Mas claro, quando era sério, sempre podia contar com o seu auxílio e proteção.

Uma outra personagem se fazia presente nesse dia, embora não apareça na imagem: minha mãe, a fotógrafa que captou o momento. Tal como a moldura de um quadro, sinto que ao registrar aquele instante de divertimento entre pai e filho era como se ela nos abraçasse, de modo a preservar e proteger aquelas sensações de minha primeira infância. Tanto ela como ele sabiam que, naquele momento, eu era a criança mais feliz do mundo, porque contar com o amor, carinho e atenção dos pais é absolutamente tudo que uma criança pode querer e precisar, mesmo sem saber disso.

É claro que agora, aos 39 anos, me recordo pouquíssimo desse dia, mas certamente as cenas que imaginei e aqui contei foram muito próximas das que realmente aconteceram há mais de três décadas. E o que me dá essa certeza são justamente o amor, carinho e atenção que tenho o privilégio de receber dos meus pais até hoje, sentimentos que me fazem ter a convicção de que, se não foi assim, esse dia no Alto da Boa Vista foi ainda melhor do que eu pude imaginar. Se as imagens não estão tão nítidas em minha mente, devido à minha tenra idade à época, o valor daqueles momentos em família está gravado para sempre em meu coração.

Chega, não posso molhar o álbum. Vou guardá-lo e voltar à faxina.

Ilustração de Versões

Minha cicatriz

Minha cicatriz

Todo escritor tem seus momentos de bloqueio criativo. Estava eu aqui, de frente para a folha branca virtual do Word, pensando em como preenchê-la adequadamente. As ideias insistiam em me fugir, de modo que franzi o cenho, cruzei as mãos e apoiei os cotovelos nos braços da cadeira, em clara posição de quem está pensando em como resolver o vazio existencial da humanidade. Enquanto não encontrava solução para algo tão complexo, tampouco sobre o que escrever, observei minhas mãos cruzadas e reparei numa pequena cicatriz que possuo na base lateral do polegar direito.

O ano era 1996 e eu estava na oitava série. Estudava em um colégio particular de classe média, na Zona Norte da Cidade Maravilhosa, e na época eu tinha acabado de ingressar em uma academia para praticar Taekwondo. Agora imaginem vocês: um adolescente de 14 anos, com hormônios explodindo por todos os poros, sem nada na cabeça além de um forte desejo de se autoafirmar e aparecer para as meninas, praticando arte marcial! Como se não bastasse, sou carioca, ou seja, nasci com atestado de marrento.

Foi nesse espírito que, em um dia corriqueiro daquele longínquo ano, voltei agitado do recreio para a sala de aula. Ao me dirigir para meu lugar, passei pelo colega que sentava à minha frente fazendo alguma zoação qualquer com ele, provavelmente sobre futebol, já que ele torcia para um time rival do meu. Ao me sentar atrás dele, eis que de repente ele tira da mochila um estilete, o qual estávamos usando naqueles dias para fazer uma maquete, e o aponta para mim, dizendo algo como "Vem com suas graças pra ver se eu não te furo!".

Falando dessa forma, o amigo leitor pode pensar que se tratava de um marginal. Mas não. Ele também era apenas um garoto de 14 anos, até bonzinho, mas imaturo como eu e como a grande maioria nessa idade. Com uma diferença: ele não fazia Taekwondo. E eu, que mal havia passado da faixa branca e já me achava o Bruce Lee, não podia deixar passar aquela audácia. Aproveitando que justamente no dia anterior eu (não) tinha aprendido algumas técnicas de defesa pessoal, resolvi demonstrá-las num impulso, tentando lhe tomar o estilete. Em um ato também instintivo, ele recuou a mão, e a lâmina cortou a pelezinha que separava o meu polegar do indicador.

Sangue em abundância. Olhares curiosos e falatório dos alunos. Correria pela sala de aula, já que o professor ainda não estava presente naquela volta do intervalo. Quando alguém com mais de 18 anos se fez presente, fui levado para a diretoria – ou secretaria, não lembro bem – onde estancaram o sangramento com algum pano limpo. Minha mãe foi chamada e lá fomos nós para o hospital. Duas horas e seis pontos depois, voltei a tempo de pegar a última aula. A coordenadora usou minha mão enfaixada para mostrar à turma a importância de se "parar com a palhaçada de mostrar que um é mais macho que o outro", do contrário o resultado poderia ser aquele. "Ou pior!", fez questão de ressaltar.

O mais curioso, porém, foi quando voltei ao meu lugar. O colega que me feriu acidentalmente ainda estava sentado à frente da minha carteira, de cabeça baixa. Não sabia qual seria a sua reação, então sentei atrás dele calado, até constrangido. Ao fim da aula, quando todos estavam saindo, ele virou-se para mim com os olhos marejados e disse: "Se você nunca mais quiser falar comigo eu vou entender, tá?". A inocência daquela frase, somente possível de ser pronunciada por alguém de coração puro, me tocou profundamente. "Que isso, cara, tá maluco? Eu sei que foi sei querer!", foi o que consegui dizer, e o abracei quando suas lágrimas caíram. Foi um momento bonito. Mas, como de um modo geral adolescentes são idiotas que se envergonham em demonstrar sentimentos, completei, para quebrar o gelo e manter a minha fama de mau: "Até porque, pra você conseguir me machucar só na sorte mesmo!".

Daquele dia em diante, o mero colega de classe tornou-se um grande amigo, o qual tenho o privilégio de ter em minha vida até hoje. E até hoje, a única cicatriz que possuo no corpo é essa, pequena, na base do polegar, para a qual estou olhando agora e... droga, por que tô lembrando disso? O tempo tá passando e ainda não faço ideia sobre o que escrever...

Ilustração de Versões

Escrita ansiosa

Escrita ansiosa

Gosto de escrever desde a adolescência. Além de história, outra disciplina onde me destacava era língua portuguesa, sobretudo em redação. Os feedbacks dos professores eram sempre positivos, de modo que descobri um possível talento na área da escrita. Esse foi o principal motivo que me levou a cursar jornalismo, embora eu viesse a descobrir depois que essa profissão requer muito mais que apenas um bom texto. Mas isso é uma outra história...

O fato é que, uma vez que me convenceram de que eu escrevia razoavelmente bem, tornei-me um perfeccionista na coisa, de modo que eu colocava uma carga muito maior de responsabilidade sobre mim mesmo a cada vez que pegava em uma caneta, mesmo se fosse para um bilhete qualquer. Quando era um texto que exigia certo rigor, um trabalho de faculdade, por exemplo, meu suplício para que tudo saísse perfeito era ainda maior. Isso me levava a um enorme grau de ansiedade na espera da correção do professor, e os momentos que antecediam a nota me corroíam internamente.

Sobrevivi à universidade mantendo os elogios da maioria dos professores, ainda que eu raramente concordasse com eles. Sempre encontrava um defeito aqui e ali, e quando não achava eu o inventava. Esse texto mesmo que estou escrevendo agora pra mim está um lixo. Talvez esse excesso de zelo seja o motivo pelo qual me mantive afastado de qualquer pretensão de ingressar em uma carreira literária durante muito tempo. Mais precisamente até o ano passado, quando a maturidade dos meus quase 40 anos disse para mim: "Deixe de frescura e volte a escrever. Mesmo que ninguém goste, no mínimo você estará praticando o seu hobby".

Então fiz isso. De lá pra cá já concluí um romance, uma novela e alguns contos e crônicas. Todos na gaveta, claro. Mas a minha ansiedade por obter retornos das pessoas permanece. Não necessariamente positivos, mas ao menos que me falem algo sobre o que escrevi. Digo isso porque, quando acabo de escrever algum texto, costumo dar para algum parente ou amigo avaliar. Metade deles nem chega a ler, o que me mata por dentro. Talvez a culpa seja minha, por enviar para pessoas que provavelmente não gostam de ler – embora eu peça permissão antes e ela seja concedida. E as que leem costumam demorar a dar alguma resposta, enquanto eu fico contando os dias e pensando: "Está horrível. Só estão pensando em uma maneira de me dizer".

Quando os comentários chegam, no entanto, mais uma vez eles vêm com elogios, e novamente também não consigo crer plenamente, seja por achar que não me falariam sinceramente se fosse ruim, seja por eu mesmo não confiar na minha escrita. E sigo nesse processo: escrevendo, revisando, reescrevendo, revisando novamente, reescrevendo mais uma vez, me convencendo que não fica melhor que aquilo mesmo e forçando, enfim, o ponto final. E aí entrego para alguém (talvez) ler. E aguardo uma eternidade pelo feedback.

Quer saber? Trancarei os comentários para esse texto e vou dormir...

Ilustração de O atestado

O atestado

O atestado

Será que a gente deve levar tudo o que nossos pais falam totalmente a sério? O causo que vou contar agora, que aconteceu comigo nos idos de minha juventude, me levou a esse autoquestionamento que faço até hoje. Meu pai, homem sério e de poucas palavras, sempre teve algumas convicções bem arraigadas. Por exemplo: tatuagem é coisa de malandro, cabelo grande e brincos só se for mulher, e nunca, NUNCA se deve faltar ao trabalho. E a história que ora conto se deve a eu ter assimilado visceralmente esta última orientação.

Tinha eu os meus 18 anos – ah que saudade! – e estava em meu primeiro emprego com o objetivo de pagar a faculdade que cursava. Saía de casa às 6h e chegava às 23h, trabalhava de segunda a sábado, me alimentava mal, dormia pior ainda e o dinheiro que ganhava apenas passava de relance pela minha conta salário, indo no dia seguinte ao pagamento para a conta da universidade. Pensando bem, não tenho tanta saudade assim... O fato é que, nessa vida que levava, vivia extremamente cansado e dormindo pelos cantos. Como estudava à noite, parte das aulas eu passava com a cabeça abaixada, babando na carteira, extenuado após um dia intenso de trabalho.

Pois foi então que, no meio de uma dessas semanas exaustivas, acordei às 5 da matina como de hábito e, ao abrir os olhos e desligar o maldito despertador, senti tudo à minha volta girar. Uma sensação horrível, que imediatamente me causou um grande enjoo. O teto e os objetos do meu quarto não paravam de se mexer, e por um momento me questionei se não se tratava de um sonho, no qual estava em alto-mar em meio a uma tempestade. Esperei alguns minutos imóvel olhando para cima, focando em um único ponto, a fim de verificar se aqueles sintomas estranhos passavam. De fato senti uma pequena melhora e tentei me levantar, mas ao fazer isso quase me esborrachei no chão levando todo o conteúdo da escrivaninha, onde consegui me segurar.

Nesse tempo eu ainda morava com os meus pais, e, quando eles perceberam que não saí do quarto para tomar banho e me arrumar para o trabalho no horário de costume, fui visitado pela minha mãe. Contei o que estava acontecendo e ela me aconselhou a descansar um pouco mais. Se eu não melhorasse, devia ficar em casa aquele dia em repouso. Segundo ela, eram sintomas de labirintite, algo que nunca havia ouvido falar à época. Meu pai, que ouvia tudo à porta do quarto, fez uma cara de desaprovação e, balançando a cabeça negativamente, se ausentou sem nada dizer, mas ao mesmo tempo dizendo tudo. Seu gestual me transmitiu com total sucesso a seguinte mensagem: "Que frescura do cacete, vai trabalhar, moleque!".

Meus pais saíram rumo aos seus empregos e eu fiquei esperando a tontura passar na cama. Morto de cansaço, pra variar, apaguei completamente e só acordei quase meio-dia! Me desesperei, pois àquela altura já não valia mais a pena sair de casa, e nunca, NUNCA devemos faltar ao trabalho! O que fazer? Minha preocupação naquele momento era integralmente pelo não comparecimento ao dever laboral, não com o meu estado de saúde. Só conseguia imaginar que perderia o emprego e que meu pai me chamaria de vagabundo ao chegar e me encontrar ocioso. Enquanto pensava no que fazer, percebi que dessa vez o quarto estava estranhamente... parado! Me levantei lentamente, com todo cuidado. Sim, nada mais girava, a não ser a Terra, e àquela época não havia dúvidas quanto ao seu formato geóide – bons tempos!

Tomei uma ducha, almocei e percebi que estava realmente melhor. No entanto, precisava encontrar alguma solução para salvar o meu emprego. Depois de queimar os neurônios, cheguei à conclusão de que necessitava de um atestado, mas como consegui-lo se eu nem sentia mais nada? Que médico me daria esse documento se eu não estava doente? Fiquei um tempo em dúvida sobre o que fazer, mas o medo do desemprego e do julgamento do meu pai foi mais forte. Fui para o hospital e me dirigi à emergência. Afinal, seria impossível conseguir de imediato um horário vago num consultório particular. Precisava apresentar o atestado no dia seguinte à minha chefe – e para o meu pai naquele mesmo dia! Se não conseguisse, já sei o que ouviria dele: nunca, NUNCA se deve faltar ao trabalho!

Depois de cuidar da papelada na recepção fiquei aguardando ser chamado, torcendo para ser um médico compreensivo enquanto me sentia um lixo por estar ali, ocupando um lugar na fila de atendimento, vendo um sem número de enfermos entrarem e saírem do local. Passada uma meia hora, um homem de jaleco chamou meu nome. Entrei na sala seguido por ele, que se sentou e perguntou:

– E então, o que te traz aqui?

Essa pergunta poderia ser respondida de várias maneiras. Mas foi aí que, desgraçadamente, movido pela vergonha de estar no hospital me sentindo perfeitamente saudável, tomei a pior decisão que poderia: resolvi fingir que ainda estava mal! Relatei o que de fato ocorrera pela manhã, omitindo a parte em que melhorei após dormir por algumas horas, enquanto simulava estar tonto mexendo com o tronco, ora de um lado para o outro, ora em círculos. O doutor fez várias perguntas para conhecer meu histórico, e logo constatou que aquelas vertigens estavam relacionadas ao estilo de vida que vinha levando.

Após a anamnese, o médico realizou os exames de praxe, que deram todos normais – claro! Mas eu continuava girando na cadeira, me segurando na mesa "para não cair". Ele voltou para a sua cadeira com uma expressão sisuda e começou a fazer anotações. Fiquei quieto, me perguntando o que será que ele escrevia, já que meu único interesse era que ele preenchesse o meu atestado. Que por sinal eu ainda nem pedira. Obviamente, teria que solicitar somente ao fim da consulta, como se fosse o fator menos importante. Decidi que ao término de tudo me levantaria e, pouco antes de chegar à porta, me viraria e falaria "Ah, doutor, será que seria possível me dar um atestado?". Eu mereceria um Oscar! Gargalhei internamente ao ter essa ideia, e já nem me lembrava da crise de consciência que havia tido há poucos minutos.

De súbito, ele parou de escrever, pegou o telefone e, ligando para outro setor, pediu a presença de "alguém da enfermagem". Comecei a achar aquilo meio estranho, mas a tragédia só estava começando. Ele disse:

– Amigo, seus sinais estão bons, a ausculta foi ok também, mas eu vejo que você não está nada bem. Precisamos avaliar melhor se o que está causando essa sua vertigem é só o estresse mesmo ou algum outro problema. Preenchi aqui a solicitação de alguns exames, mas por ora vamos fazer uma medicação para você já sair daqui melhor, ok?

– Medicação? Qual medicação, doutor?

– Não se preocupe, vai ser só uma injeçãozinha que vai te fazer melhorar rapidinho. Não posso te deixar sair daqui assim, tonto desse jeito. Nem sei como conseguiu chegar aqui sozinho sem ser atropelado.

Fiquei em estado catatônico por alguns segundos. Se há uma coisa na vida da qual tenho medo é agulha de injeção! Nunca imaginei que, na busca por um simples atestado, teria que pagar com uma picada no braço ou sabe Deus onde! Comecei a suar frio e senti meus lábios perderem a cor, enquanto o médico olhava para mim – ambos paralisados – provavelmente pensando que eu estava piorando. Apesar disso, quando consegui falar, adotei um discurso na direção contrária:

– Sabe doutor... Acho que já estou me sentindo melhor, viu? Não sei, acho que eu tava precisando mesmo era descansar e me alimentar!

– Mas ainda há pouco você estava quase caindo da cadeira, e agora está pálido!

– É mesmo? Não notei. Não foi impressão sua?

Confuso, o médico nem teve tempo de responder, pois foi nesse momento que entrou uma enfermeira no consultório carregando uma bandeja de metal com alguns instrumentos. Senti um frio na barriga enquanto via, impotente, o médico entregar o receituário na mão da mulher, indicando a tal medicação que eu "precisava". Sem acreditar, observei aquela profissional dedicada, que apenas estava cumprindo o seu dever, injetar uma agulha IMENSA num frasquinho de vidro, sugando o líquido que em breve inocularia naquele jovem rapaz "doente" que ali estava.

Tentei pensar em algo mais a dizer que pudesse me salvar daquela situação, mas ela foi muito mais rápida. A injeção já estava pronta, e aquele moço "enfermo" não podia mais esperar. Ele necessitava daquele remédio para tirá-lo daquela "vertigem" e seguir a sua vida. Ainda sem crer no que ocorria, senti uma dor horrível no meu braço direito enquanto a agulha me penetrava sem pedir autorização. Foram breves segundos para os profissionais da saúde ali presentes, uma eternidade para mim.

Quando a agulha saiu, a enfermeira logo se retirou e o médico começou a falar. Eu o ouvia sem escutar, com o olhar perdido no espaço, pois só conseguia dar atenção à dor lancinante provocada pela injeção. Só entendi que eu poderia aguardar na enfermaria, e que quando eu melhorasse estaria liberado. Mas que não deixasse de fazer os exames. Ele se levantou, abriu a porta para mim e me desejou melhoras com um aperto de mão o qual mal percebi pelo tato, pois a sensação era que eu havia acabado de perder aquele membro.

Cheguei à enfermaria cambaleando. Meu braço parecia pesar 113 quilos. Desabei na poltrona e fiquei esperando a tal melhora que o médico havia falado, mas o curioso é que, agora sim, estava vendo tudo girando! Sempre fui fraco para dor, e somado ao nervosismo por ter tomado injeção tive a certeza de que eu logo perderia os sentidos. A vista começou a escurecer e só pude dizer um fraco "Me ajuda!". Uma funcionária do hospital se aproximou e tentei responder à voz dela, já que não a enxergava. Mais tarde viria a saber que eu estava falando virado para a direita, onde só tinha uma parede, enquanto a moça estava à minha esquerda.

Era uma técnica de enfermagem, que percebeu o meu estado de quase desmaio e mandou chamar dois maqueiros para me levarem de volta ao consultório. Instantes depois eu estava novamente de frente para o mesmo médico, que ainda soltou a piada:

– Nossa, já trouxe os exames? Foi rápido, hein? Ha ha ha...

Eu mal conseguia ficar sentado, quanto mais responder. O doutor me conduziu a uma maca, repetiu os exames básicos e mandou chamar novamente a enfermeira. Falou o nome de algumas medicações e, ainda sem enxergar direito, só consegui ouvir barulhos de instrumentos sendo manipulados e o tilintar de alguns metais. Enquanto tentava controlar a respiração e me acalmar, uma ideia começou a ventilar pela minha mente, não permitindo que eu alcançasse a tranquilidade. Será que... não, não era possível. Eles não fariam isso, de novo não! Foi então que o médico perguntou:

– Em qual braço você tomou a injeção mesmo?

– Direito, por quê?

Não houve resposta, mas cinco segundos depois entendi a razão. Senti uma agulhada ainda mais dolorosa que a primeira no meu braço esquerdo! Só podia ser brincadeira, e de mau gosto! Duas injeções em menos de cinco minutos! Em um cara que não tinha absolutamente nada, mas que agora estava prestes a morrer de dor! Se eu ainda não havia desmaiado, meus dois braços agora pareciam completamente mortos. Tentava movê-los, mas a dormência que sentia não me permitia.

– Essa medicação vai lhe fazer bem.

Eu já havia ouvido isso...

– Não precisa voltar para a enfermaria, fique aí deitado nessa maca mesmo. Daqui a alguns minutos você estará melhor e eu te libero, ok?

Não havia mais o que responder. Nada mais a argumentar, a não ser aceitar aquele castigo do destino. Não desmaiei, mas acho que cochilei, e quando despertei eu de fato estava um pouco melhor. Pelo menos o mundo havia parado de girar novamente. O meu mundo, pois o nosso planeta esférico continuava rodando, claro.

Alguns minutos depois o médico veio me ver e perguntou se eu estava bem. Disse que sim, e ele respondeu que de fato a minha aparência estava muito melhor.

– Está liberado, amigão! E não esqueça os exames!

Quando eu estava de saída, ansioso por sumir dali o mais rápido possível, antes que me dessem uma terceira injeção nos glúteos, ouvi o doutor dizer, pouco antes de eu abrir a porta:

– Ah, amigo, por acaso você precisa de algum atestado?

Ilustração de O ladrão instruido

O ladrão instruído

O ladrão instruído

Pierre nasceu em uma família de classe média alta de um município da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Frequentou as melhores escolas, teve o amor dos pais, gozava de boa saúde e usufruiu tudo o que uma pessoa pode esperar desta existência terrena. Dentre as suas qualidades, a que lhe dava mais orgulho era a sua ótima instrução, que resultava em um perfeito uso da linguagem. Contudo, em uma dessas variáveis inexplicáveis da vida, após completar 30 anos Pierre virou ladrão.

Começou com pequenos furtos, até mesmo entre conhecidos. Desenvolveu eficientes habilidades manuais, o que poderia muito bem lhe servir caso tivesse optado por ser mágico. Mas só o que ele gostava de fazer desaparecer era o dinheiro e demais objetos de valor dos bolsos alheios.

Aos poucos, subtrair pertences se tornou simplório demais, motivo pelo qual passou a aplicar golpes mais sofisticados. Um tal bilhete premiado aqui, uma venda de produto – que nunca chega – por valor muito abaixo do mercado ali, e assim Pierre foi se tornando um estelionatário de primeira.

Ele não se considerava um ladrão, pelo menos não exatamente. Afinal, sua origem era de elite, o que não combina com tal rotulação, sobretudo no Brasil. Pierre apenas gostava do prazer de tentar algo proibido sem ser pego, e, como recompensa por sua sagacidade, se apropriava dos bens que os ingênuos não conseguiam manter consigo. Nada de mais.

Ganancioso, Pierre queria alçar voos mais altos na sua carreira de "aproveitador de oportunidades", como se autodefinia, e decidiu que o próximo passo seria assaltar, ou melhor, remanejar algumas peças de uma joalheria para a sua casa. Para isso, concluiu que era necessário ao menos mais um parceiro nesta "aventura", e escolheu um baixinho folgado, vulgo Bagulinho, que conhecera em uma boate.

O rapazinho lhe parecia o cúmplice perfeito, já que tinha uma arma (Pierre jamais pegaria em uma, pois não era bandido...), possuía experiência nesse tipo de "atividade" e, principalmente, era de uma classe inferior. Ou seja, não poderia jamais ser associado a ele, caso fosse pego sozinho. A Pierre caberia apenas o planejamento intelectual e uma participação discreta na ação.

O fato de ter boa aparência e o dom da oratória sempre o ajudou, e ele contava com isso novamente, já que estariam em um estabelecimento de grã-finos. Mas o jogo virou, pois o seu quase TOC com o uso adequado da língua portuguesa passou a ser o seu calcanhar de Aquiles na convivência com Bagulinho, que era semianalfabeto e utilizava um linguajar errado, muitas vezes chulo.

– Vamos lá, Bagulinho, preste muita atenção ao plano, porque da sua perfeita execução depende o nosso êxito, ok?

– O nosso o quê?

– Êxito, o nosso sucesso.

– Ah... Ok, ok...

– O plano é o seguinte: a loja fica na Av. Leopoldo, e eu já observei que das 12h às 13h ela fica menos movimentada. Os funcionários se revezam para almoçar e quase não entram clientes nesse período. Ficam só uns três atendentes, às vezes dois. Eu vou entrar e começar a conversar com um deles, fingindo interesse em alguma peça. Você fica do lado de fora, entra uns cinco minutos depois, vai à mesa do outro funcionário e entrega o bilhete.

– Que bilhete?

– O que você vai escrever anunciando o que a gente quer.

Pierre continuava evitando termos relacionados ao crime. Prosseguiu:

– Nós iremos separados. A que horas você acha que consegue chegar lá?

– Umas meio-dia e meio...

O ouvido de Pierre chegou a doer:

– Não, é meio-dia e meia – repetiu, frisando a última palavra.

– Ué, foi o que eu disse!

– Não, você disse "umas meio-dia e meio".

Bagulinho fitou-o com expressão confusa, sem entender nenhuma diferença. Pierre deu de ombros.

– Tudo bem, esqueça. Escreva o bilhete que eu vou ditar.

O recado era curto, tinha quatro linhas em um folheto pequeno, mas Bagulinho levou mais de dez minutos para escrevê-lo, o que fez Pierre quase enlouquecer de impaciência. Não tomava a frente porque não queria nem mesmo que a sua letra ficasse como uma possível prova de seu envolvimento. Quando finalmente terminou, Bagulinho entregou o bilhete para Pierre, que desejou ter perdido a visão antes de ler aquele papel.

iso aqi e um açalto pega as joia e poe tudo nese saco se tenta alguma grassinha leva xumbo e anda logo que oji eu num to bao

A última frase havia sido um acréscimo por conta de Bagulinho, uma espécie de licença poética. Depois de tomar fôlego, Pierre disse:

– Você já ouviu falar em pontuação? Em maiúscula? Ortografia?

– Como assim? Vai ter mais gente com a gente no assalto? Você disse que ia ser só a gente! – protestou o comparsa, já inconformado em ter que dividir o lucro com mais três pessoas!

Com tamanha ignorância e tanta "gente", Pierre encerrou a conversa por ali, temendo cometer um assassinato em vez de roubo. No dia seguinte, na hora marcada, entrou na joalheria quando viu, à distância, que Bagulinho já estava próximo do local e preparado. Iniciou uma conversa com a vendedora, informando que tencionava presentear sua mãe com um bracelete de ouro, e depois de poucos minutos viu seu companheiro iletrado entrar na loja. O meliante abordou outra funcionária, a única que ali restava.

Logo depois, rendida, a mulher começou a dar sinais de medo, os quais tentava sufocar diante da ameaça do revólver escondido na jaqueta de Bagulinho. Pierre tentou manter a atenção da vendedora que estava lhe atendendo, para que a ação transcorresse disfarçadamente e sem histeria de mais uma pessoa. E até conseguiu durante um tempo, mas a funcionária percebeu a aflição da colega, que jogava as joias rapidamente dentro de um saco preto. Entendendo do que se tratava, e sem querer alarmar o elegante cliente com quem falava, discretamente acionou um botão embaixo do balcão.

Mas Bagulinho percebeu a manobra e adiantou-se alterado, avançando com a arma na direção da moça:

– Quié que a senhora tá fazendo aí embaixo da mesa, hein? Tá querendo arrumá pobrema pá senhora, é?

Pierre ficou tão atônito e desesperado com aquela reação destemperada, totalmente fora dos planos, que num impulso tentou contê-lo:

– Calma, Bagulinho!

Agiu em uma fração de segundo, porém foi mais do que suficiente para incriminá-lo. Pierre viu consternado o olhar surpreendido da funcionária, que até então estava encantada com aquele senhor tão elegante e educado. Ainda tentou pensar rápido em algo para dizer que o isentasse daquela situação, mas qualquer coisa que falasse não seria melhor do que o velho e inútil chavão "não é nada disso que você tá pensando". E mesmo que conseguisse a proeza de criar em segundos um argumento inteligente que o absolvesse, Bagulhinho tratou logo de enterrar as suas chances de sair limpo daquela história:

– Mas patrão, ela fez alguma coisa aqui pá denunciar nós, olha aqui...

E, com a delicadeza de um elefante, virou a mesa com um chute, estilhaçando o tampo de vidro e espalhando dezenas de peças pelo chão. Pierre levou as mãos à cabeça, incrédulo. Porém o ato revelou que, de fato, por baixo do balcão havia um botão de emergência, certamente ligado a algum sistema de segurança externo.

– Viu, doutô? Ela apertou isso daí – e voltando-se para a outra funcionária – Termina logo de colocá essas joia aí, sua vaca!

Por incrível que pareça, mesmo com o assalto transcorrendo da forma mais caótica e imprevista possível, o que mais incomodava Pierre era aquela sucessão de expressões erradas ditas por Bagulinho. Ele não sabia o que fazer, só pensava em nunca mais ter que ver aquele energúmeno para nunca mais ter que ouvir tais asneiras.

Àquela altura o saco não comportava mais joias, e os dois deram-se por satisfeitos. Mas quando estavam se preparando para fugir, sete policiais invadiram a joalheria fortemente armados. Bagulinho não teve como reagir apenas com um mísero 38, ainda mais por estar todo atrapalhado com a pesada sacola na outra mão. Rapidamente foi dominado, e a funcionária, dirigindo-se a um dos policiais, apontou tremendo para Pierre, imóvel próximo à porta da loja.

– Esse prayboy aí também tava junto no assalto, Seu Polícia! Disse que queria um bracelete pra mãe, mas na verdade é cúmprice desse outro aí...

"Mas será possível que ninguém sabe falar direito nesse país, meu Deus!?", pensou Pierre. O policial aproximou-se dele, visivelmente surpreso por um rapaz tão distinto estar envolvido no delito. Enquanto o algemava, ironizou:

– Agora o seu bracelete é esse aqui, meu amigo! Teje preso!

Já passando mal, Pierre suspirou e se entregou de vez:

– Até tu, Brutus?

Foi então que Bagulinho, indignado, soltou a última pérola:

– Patrão! O sinhô conhece os homi?

Antes de ser levado pelos policiais, Pierre desmaiou.

Ilustração de O Vaso

O vaso

O vaso

– PUTA QUE PARIU, VALDIR!

Foi só o que ouvi após o desesperador ruído de estilhaços. Virei-me imediatamente e, pela expressão aterrorizada de Lulu, logo entendi o que havia acontecido. Fui em direção a ela rindo, não só por ter achado a situação cômica, mas também para lhe passar confiança. Minhas primeiras palavras, entretanto, não tiveram esse efeito:

– Que merda, hein, Lulu?!

– Merda é pouco, que desastre!

– Calma, também não é pra tanto. Esse vaso deve ter mais de cinco séculos, já tava na hora de se aposentar mesmo.

Lulu riu, mas de nervoso, e perguntou:

– E agora?!

– E agora vamos "vazar" daqui, ninguém viu essa tragédia – respondi pegando Lulu pelo braço e a arrastando para a próxima sala do museu.

Continuamos observando as demais peças da exposição como se nada houvesse ocorrido. Mas minha querida amiga continuava inquieta:

– Ninguém estava na sala na hora, mas não quer dizer que ninguém tenha visto. Tem câmeras de segurança por todo lado. Logo algum funcionário do museu vai vir atrás de mim.

– E eu vou dizer que a culpa é deles, que não colocaram aquela redoma em torno da peça. Percebeu que era a única que estava desprotegida?

– Nem reparei. Mas eles não vão querer nem saber, daqui a pouco vão chamar a polícia pra gente.

– Mas tu é botafoguense mesmo, hein Lulu? Que pessimismo!

– Não é pessimismo, não, é a realidade. Marcelo vai ter que vender um rim pra indenizar o museu.

– E por que o seu marido, se o coitado nem tá aqui? Vende o seu rim!

– Eu não, acabei de ser mãe!

Nesse momento, à distância, vi dois seguranças saírem da recepção e iniciarem uma caminhada, falando em walkie-talkies, pelo longo corredor que separava a entrada do museu do hall onde estávamos. Olhei para Lulu e percebi que ela também havia pensado o mesmo: os caras estavam vindo até nós. Precisávamos pensar rápido. Tentei acalmá-la.

– Você não teve culpa. Ninguém faria um negócio desses de propósito, não podem te responsabilizar por um acidente.

– Podem sim.

– Não sabem que fomos nós. Vamos agir como se nada tivesse acontecido. Tem pessoas que fazem os maiores absurdos, mas de forma tão natural que ninguém se dá conta na hora.

– Deixa de ser marmota! Realmente não fomos nós, fui eu! E claro que sabem, devem ter visto no circuito interno.

– Eu não vi câmera nenhuma lá.

– Nem eu, mas devia ter, tem em todo lugar hoje em dia, ainda mais num local como esse, cheio de coisa valiosa.

Os guardas já estavam na metade do caminho. Pareciam vir mesmo em nossa direção. Foi quando ouvimos uma voz pelo sistema de som do museu.

– Senhoras e senhores, pedimos a todos que se reúnam no salão principal. A direção do museu fará um comunicado muito importante.

Lulu segurou e levantou duas mechas do seu longo cabelo loiro acima da cabeça. Ela sempre fazia isso quando queria dizer que estava desesperada, e normalmente é um ato engraçado. Até me surpreendi por nesse momento ela ainda conseguir fazer uma piada interna, porque a situação parecia estar ficando séria mesmo. Será que reuniriam todos os visitantes para descobrir e expor o culpado pela destruição do vaso?

– Vou me acusar. Quem fala a verdade não merece castigo, não é o que dizem?

– Tá doida, Lulu? Deixa isso pra lá, já falei que foi sem querer.

– Não importa. É melhor falar logo do que passar pelo constrangimento de ser interrogada em público.

Os seguranças estavam quase chegando e eu tentava pensar em uma solução mágica que pudesse salvar minha amiga. Até que tive a ideia.

Havia poucas pessoas no museu, e a maioria já se encontrava no salão principal, que era onde estávamos. Ninguém tinha entrado ou saído da sala onde o vaso estava quebrado. Em tese, ninguém ainda o tinha visto.

Quando os guardas se aproximaram de nós, percebi que ambos colocaram as mãos no cabo das armas que traziam na cintura. E então pus a ideia em prática:

– Não precisa disso, fui eu! – disse me dirigindo aos seguranças, e até ensaiando um tímido levantar de mãos.

E antes que Lulu pudesse reagir à minha inesperada confissão, algo ainda mais imprevisto aconteceu.

– Foi você o que, jovem? – respondeu um dos guardas, que passaram no meio de nós dois em direção a uma porta lateral do salão principal.

Os seguranças a abriram, deixando entrar outros quatro guardas empurrando uma mesa com um grande vaso protegido por uma redoma.

– Senhoras e senhores – retornou a voz nos alto-falantes –, recebam agora o vaso I Zhou da dinastia Ming, século XIV, que finalmente chega ao nosso museu para ocupar o lugar da sua réplica, localizada no salão anterior...

Ilustração de Instintos

Instintos

Instintos

Chegaram em casa sem se falar. Amanda foi direto para o quarto e bateu a porta. Carlinhos sabia que devia dar um tempo pra ela, e a si mesmo também. Sentia seu rosto quente, e ao passar pelo espelho da sala viu que estava vermelho. Apesar disso, não conseguiu se conter. Foi atrás dela e entrou no dormitório do casal.

– A porta não tem culpa de nada não, viu? Quebrar as coisas não vai resolver nada!

– Não me provoca!

– Por que essa raiva toda? O que foi que eu fiz?

– Nada, você nunca faz nada, você é um santo! São Carlinhos, já existe esse santo? Vou mandar uma carta para o Papa te canonizar!

A vontade de Amanda era arranhar o marido por inteiro.

– Deixe de deboche que isso também não resolve nada, cacete!

– Cacete digo eu! Tu me chama pra sair depois de um século sem a gente fazer nenhum programa junto, e em vez de prestar atenção em mim e curtir comigo você ficou olhando pra tudo quanto é piriguete que passava naquela porcaria de bar que tu me levou!

– Porcaria? Gastei um dinheirão naquele lugar e é assim que você fala?

– Um "pé sujo", isso sim!

– "Pés sujos" fazem parte da alma carioca, você que não sabe apreciar!

– E você não deve ter nada na cabeça, pra gastar dinheiro num lugar daquele! E que se dane o bar, não muda de assunto! Tô falando é de você olhando pra tudo quanto é rabo de saia, parece um adolescente que nunca viu mulher na vida!

– Não olhei pra ninguém, Amanda!

– Ah, tá bom! Eu tô louca ou tô vendo demais?

– As duas coisas, talvez, porque tá vendo coisa que não existe, e dar vexame em público é coisa de louca mesmo!

– Que vexame?! Você sabe que não sou dessas de dar barraco, só falei pra gente vir embora quando cansei da sua galinhagem!

– Falou pra vir embora aos gritos, me puxando como se eu fosse um cachorro, até assustou aquela mulher de saia branca!

– Te puxei porque tu é um cachorro mesmo, seu... Peraí! QUE MULHER DE SAIA BRANCA?!

Há momentos na vida de um homem em que ele tem a nítida sensação de que seu coração irá parar. Uma espécie de raio gélido percorre todo o corpo humano numa fração de segundo, em resposta a determinados estímulos externos que também ocasionam o acionar de um alarme que soa alto em sua mente, onde um telepata poderia ler "PERIGO! PERIGO! PERIGO!" em um neon piscante. Era assim que Carlinhos se sentia ao trair-se em ato falho. Só conseguiu repetir a trágica sentença num fio de voz, para ganhar tempo:

– Que mulher de saia branca?

– Foi o que eu te perguntei! QUE MULHER DE SAIA BRANCA, CACHORRO?!

– Não me chama de cachorro que eu gamo...

Era o cúmulo da cara de pau, e Amanda não suportou mais. Partiu para cima do esposo, disposta a cravar suas unhas no peito dele. Mas a sorte – se é que podemos usar essa palavra num caso desses – é que a química do casal era explosiva, do ódio ao amor em minutos. Sabendo disso, e conhecendo os pontos fracos de Amanda, ele a deixou socar seu tórax por alguns instantes e a abraçou, prendendo-a junto a si. Sua raiva era por conta do escândalo que a mulher tinha feito em público, mas sabia que não tinha sido sem razão. E sabia também que os olhares para outras mulheres não significavam nada para ele, eram ações que realizava simplesmente por instinto. Coisas que as mulheres nunca entenderiam... Ainda assim, tentou explicar, pois não queria mais brigar. Com Amanda ainda se debatendo, abaixou o rosto e falou em seu ouvido:

– Amor. Amorzinho. Para. Eu te entendo. A mulher de saia branca era só uma pessoa que estava sentada na mesa ao lado. Eu só reparei porque estava perto da gente, mas desculpa, não queria te magoar.

– Não foi só ela, você olhou pra um monte de gente – respondeu choramingando.

– Isso, um monte de gente, eu tava olhando normal, para o bar, para a banda que tava tocando, não necessariamente pra mulheres. Só não vou dizer que só tenho olhos pra você porque isso é muito clichê! – explicou, suavizando.

– Eu sei que era pra mulher, você tem espírito de galinha...

– Galinha tem espírito?

Amanda se odiou porque não conseguiu impedir uma risadinha.

– Para, idiota, tô falando sério...

– Eu também. Olha só, amor, mesmo que eu tivesse olhado, a minha escolha é você. Eu escolhi você há três anos e escolho estar contigo todos os dias. Nós não somos obrigados a nada, e se eu vivo contigo é porque eu te amo, e é isso que importa.

Sentiu que a esposa estava amolecendo, e continuou sussurrando e respirando próximo ao ouvido dela.

– Para, Carlinhos, você não tá merecendo nada hoje.

– Mas você tá. Vou te dar muito carinho. E me chama de amor.

Carlinhos a beijou e Amanda novamente não resistiu. Mas dessa vez cedia à paixão, não à cólera. E tiveram uma noite maravilhosa.

No dia seguinte, Carlinhos acordou mais cedo e foi preparar um café da manhã especial para a esposa. Enquanto esperava os pães esquentarem na sanduicheira, começou a zapear os canais da TV e parou quando viu que estava passando "Instinto Selvagem", um clássico da sua época de adolescente. A cena do momento o distraiu tanto que nem notou quando os sanduíches ficaram prontos. Atraída pelo cheiro de queimado, Amanda saiu do quarto alarmada e se deparou com o marido no sofá de frente pra televisão.

– QUEM É ESSA MULHER DE SAIA BRANCA SEM CALCINHA???

Carlinhos pulou no assento derrubando o controle remoto, coração disparado.

– É a Sharon Stone, amor, é só a Sharon Stone!

Final Alternativo N° 1

(...) Carlinhos a beijou e Amanda novamente não resistiu, mas dessa vez cedia à paixão, não à cólera. E tiveram uma noite maravilhosa.

No dia seguinte, Carlinhos acordou mais cedo e foi passar um café. Enquanto saboreava devagar, lembrou-se de algo que acendeu sua curiosidade. Voltou ao quarto, onde sua esposa ainda dormia profundamente, e recolheu as roupas que ficaram pelo chão na noite anterior. Levou-as à área de serviço, mas antes de jogar sua calça jeans virada do avesso na máquina de lavar, retirou um cartão de visita do bolso. Havia um celular e uma identificação:

Samantha Collares de Albuquerque - Advogada

E no verso, a seguinte mensagem escrita com bela caligrafia:

Você é tão gato, e seu olhar me encantou tanto, que eu cuidaria do seu divórcio sem cobrar honorários

A mulher de saia branca aproveitara uma ida de Amanda ao banheiro do bar para deixar cair aquele cartão, "casualmente", ao passar pela mesa de Carlinhos. Por isso, daquele momento em diante, não conseguira mais desgrudar os olhos da mulher, a ponto da esposa perceber.

Relendo a cantada agora diversas vezes, e lembrando-se de como era bonita a tal de Samantha, Carlinhos teve uma ereção. De imediato, veio à sua mente os momentos especiais que havia passado com Amanda há poucas horas, e se deu conta do profundo sentimento que nutria por ela.

Não tirou os olhos da mensagem por um bom tempo, enquanto sua mente produzia os mais variados pensamentos – e imagens. Até a esposa acordar, decidiria se rasgaria o cartão ou o guardaria no escaninho que havia em seu escritório.

Final Alternativo N° 2

(...) Carlinhos a beijou e Amanda novamente não resistiu, mas dessa vez cedia à paixão, não à cólera. E tiveram uma noite maravilhosa.

No dia seguinte, Amanda acordou mais cedo e foi passar um café. Enquanto saboreava devagar, foi ao escritório, trancou a porta e retirou um celular de um escaninho que mantinha em sua mesa de trabalho. Há três dias que não tocava no aparelho, já que Carlinhos, sabe-se lá por qual razão, finalmente resolvera se mostrar mais atencioso, e até a chamara para sair na noite anterior. Mas agora era tarde. Seu longo período ausente a havia deixado muito carente, e ela teve que buscar outras soluções.

Ligou o telefone e foi direto nas mensagens de Ricardo. Havia 13 não lidas, algumas em tom de paixão, outras de saudade. O jeito com que ele a tratava e o carinho que lhe demonstrava a faziam se desmanchar. Sentou-se à mesa e digitou: "Desculpe, meu amor. Faz três dias que ele não sai do meu pé. Você sabe que ainda não posso resolver essa situação como gostaria, então por enquanto tenho que bancar a boa esposa, com direito à ceninha de ciúme e tudo, rsrs... Mas a nossa hora vai chegar... Enquanto isso, podemos nos ver amanhã no nosso lugar? Ele vai viajar a trabalho de novo...".

Ilustração de Instintos versão da Amanda

Instintos (Versão da Amanda)

Instintos (Versão da Amanda)

"E esse elevador que não chega ao sétimo andar. Detesto ficar nesse clima horrível, já basta ter vindo o trajeto de Uber inteiro calada, ignorando cada tentativa de aproximação. Mas não tem jeito, não falo mais com ele até amanhã. Quando estiver em casa vou direto pro quarto."

Esse era o meu pensamento quando cheguei com Carlinhos, meu "namorido". Mas as coisas raramente saem como a gente planeja, né? Devo dizer que não por culpa minha, pelo menos não nesse caso. Abri a porta do apartamento e cumpri meu intento: fui direto pro quarto e bati a porta, fazendo questão de usar toda a minha força. Não queria mais ver a cara nem ouvir a voz daquele galinha, que ficou olhando pra umas 37 mulheres naquele bar chechelento que ele me levou. Mas aí ele veio atrás e tudo mudou.

– A porta não tem culpa de nada não, viu Amanda? Quebrar as coisas não vai resolver nada! – disse o cachorro.

– Não me provoca! – respondi, tentando ser lacônica e fria.

– Por que essa raiva toda? O que foi que eu fiz?

– Nada, você nunca faz nada, você é um santo! São Carlinhos, já existe esse santo? Vou mandar uma carta para o Papa te canonizar!

Como eu queria arranhá-lo da cabeça aos pés!

– Deixe de deboche que isso também não resolve nada, cacete!

– Cacete digo eu! Tu me chama pra sair depois de um século sem a gente fazer nenhum programa junto, e em vez de prestar atenção em mim e curtir comigo você ficou olhando pra tudo quanto é piriguete que passava naquela porcaria de bar que tu me levou!

Lá se foi o gelo que eu queria dar nele...

– Porcaria? Gastei um dinheirão naquele lugar e é assim que tu fala?

– Um "pé sujo", isso sim!

– "Pés sujos" fazem parte da alma carioca, você que não sabe apreciar!

– E você não deve ter nada na cabeça, pra gastar dinheiro num lugar daquele! E que se dane o bar, não muda de assunto! Tô falando é de você olhando pra tudo quanto é rabo de saia, parece um adolescente que nunca viu mulher na vida!

Eu estava pasma com o cinismo dele. Mas eu ainda não tinha visto nada, a desfaçatez iria muito mais longe.

– Não olhei pra ninguém, Amanda!

– Ah, tá bom! Eu tô louca ou tô vendo demais?

– As duas coisas, talvez, porque tá vendo coisa que não existe, e dar vexame em público é coisa de louca mesmo!

Se eu já estava irritada, aqui o fogo começou a queimar dentro de mim, e não era aquele fogo bom, não. Quer me deixar louca é só me chamar de louca!

– Que vexame?! Você sabe que não sou dessas de dar barraco, só falei pra gente vir embora quando cansei da sua galinhagem!

– Falou pra vir embora aos gritos, me puxando como se eu fosse um cachorro, até assustou aquela mulher de saia branca!

– Te puxei porque tu é um cachorro mesmo, seu... Peraí! QUE MULHER DE SAIA BRANCA?!

Se não fosse uma expressão racista, eu diria que aqui a coisa ficou preta pra ele. E a frase é ainda menos adequada para ilustrar a situação porque na verdade ele ficou branco, provavelmente mais branco que a saia da tal vadia que ele confessou ter olhado em ato falho. Na minha frente não estava mais o Carlinhos, e sim um fantasma que não sabia o que dizer.

– Que mulher de saia branca?

Idiota! O velho truque de repetir a frase ou fingir que não entendeu, pra ganhar tempo de raciocínio. Ai que raiva, ele devia me achar uma imbecil mesmo!

– Foi o que eu te perguntei, Carlinhos! QUE MULHER DE SAIA BRANCA, CACHORRO?! – pressionei, já indo na direção dele.

– Não me chama de cachorro que eu gamo...

Não falei? A cara de pau daquele ordinário não tinha limites. Não suportei e parti pra cima, determinada a arranhá-lo e esmurrá-lo até minha raiva passar. A sorte – se é que devo usar essa palavra, porque isso devia ser o básico – é que tenho um companheiro que seria incapaz de levantar um dedo para mim, então posso bater nele à vontade. E convenhamos, qualquer tapa que eu dê nele, por mais forte que eu possa tentar, não lhe faz nem cócegas. Afinal, é evidente que eu também não posso agredi-lo, mas como sei que nunca o machuco eu faço apenas para manifestar meu desagrado. Ele sempre se defende e se desvencilha com facilidade, como quando brincamos de luta, e dessa vez não foi diferente. O cachorro deixou eu bater no peito dele, pra aliviar o meu estresse, e de repente me abraçou. Eu não esperava por aquilo, já que ele aparentava estar bravo também, e pior, achava que estava com a razão! Mas então ele começou a falar no meu ouvido, enquanto me envolvia com aqueles braços que eu amo, e aí tudo mudou de figura de vez.

– Amor. Amorzinho. Para. Eu te entendo, desculpa. A mulher de branco era só uma pessoa que estava sentada na mesa do lado. Eu só reparei porque estava perto da gente, mas desculpa, não queria te magoar.

– Não foi só ela, você tava olhando um monte de gente – retruquei, tentando não lacrimejar nem demonstrar fraqueza.

– Isso, um monte de gente, eu tava olhando normal, para o bar, para a banda que tava tocando, não necessariamente pra mulheres. Só não vou dizer que só tenho olhos pra você porque isso é muito clichê!

Eu não tava acreditando muito naquele blá, blá, blá, mas confesso que eu me derreto quando ele começa a se declarar, ainda mais falando ao pé do ouvido... Mas tentei me manter firme.

– Eu sei que era pra mulher, você tem espírito de galinha!

– Galinha tem espírito?

Nesse momento eu tive mais raiva de mim do que dele. Como pude rir de uma piada tosca dessa, e ainda mais no meio de uma briga? Perdi toda a moral...

– Para, idiota, tô falando sério...

– Eu também. Olha só, amor, mesmo que eu tivesse olhado, a minha escolha é você. Eu escolhi você há três anos e escolho estar contigo todos os dias. Nós não somos obrigados a nada, e se eu vivo com você é porque eu te amo, e é isso que importa.

Aí foi golpe baixo. Dessa vez não foi tão clichê, argumentou usando a lógica e... ainda achei tão romântico! Meu Deus, que vergonha de mim, não consigo sustentar uma briga e ainda me amoleço toda com qualquer sussurrinho no ouvido...

– Para, Carlinhos, você não tá merecendo nada hoje – soltei, numa última tentativa de resistir.

– Mas você tá. Vou te dar muito carinho. E me chama de amor.

Ele me beijou e aí não era mais a Amanda raivosa, e sim a Amanda amorosa, loucamente apaixonada por aquele cafajeste, que me deu uma noite maravilhosa a partir dali. Claro, tudo para tentar me fazer esquecer o que ele fez no bar! E provavelmente teria conseguido, não fosse o que aconteceu na manhã seguinte.

Acordei com um cheiro de queimado invadindo o quarto. Ele não estava na cama, então saltei de um pulo pra ver o que estava acontecendo. Será que a noite tinha sido tão quente que a casa tava pegando fogo? Só me faltava essa! Mas não era nada de mais, ele apenas havia esquecido de tirar os pães da sanduicheira na cozinha. Fui atrás do cabeça de vento e entendi o porquê da distração: ao chegar na sala, me deparei com Carlinhos em frente à TV, babando em uma mulher de perna aberta, e ainda por cima de saia branca! Quando dei um berro pra saber que pouca vergonha era aquela ele se saiu com essa:

– É a Sharon Stone, amor, é só a Sharon Stone!

Fiquei mais um dia sem falar com ele.

Ilustração de Versões

Versões

Versões

E lá vamos nós pra mais um dia. Pelo menos hoje o tempo deu uma amenizada, o Rio de Janeiro tava parecendo a antessala do inferno! Prefiro muito mais essa chuvinha gostosa. Sou carioca, mas nesse ponto eu invejo o pessoal da Terra da Garoa. Quer dizer, mais ou menos. Amo as praias daqui, mas calor só é bom nos fins de semana, feriados e nas férias, quando podemos curtir. Pra todo o resto é horrível. Trabalhar naquela temperatura insuportável, andar na rua debaixo daquele maçarico, (tentar) dormir quando não se tem ar condicionado, Deus me livre!

Já pra Carol, quanto mais sol melhor. Acho que foi essa mudança de clima que a deixou nesse mau humor. Praticamente não pronunciou palavra desde que acordamos. Paciência. Depois que a deixar no trabalho vou pegar pesado no treino. Aproveitar essa temperatura favorável. Graças a Deus que hoje eu trabalho só à tarde, sempre prefiro malhar de manhã. Tenho mais disposição, de noite já tô esgotado. Caramba, hoje é justamente o dia de pagar a academia! Se não fosse pra lá daqui a pouco acho que nem lembraria... Falando nisso, que mais tenho que pagar esse mês? Luz já foi, aluguel também, e...

– CUIDADO, GUSTAVO!!!

***

Eu não acredito que o Gustavo não tá se lembrando do nosso aniversário de casamento. Cinco anos não são cinco dias! Já acordamos, tomamos banho, nos arrumamos, comemos, saímos de casa e ele não fez nenhuma menção à data. Será que tá preparando alguma surpresa? Acho que não. Quer dizer, tenho certeza que não. Não dá pra esperar nada romântico vindo desse ser! Acabei de me olhar no retrovisor do carro e tá estampada na minha cara a raiva que eu tô. Como ele ainda não percebeu que tem algo errado? Se eu não falo nada ele fica calado, parece que tá no mundo da lua.

Pra piorar, começou a chover. Não suporto esse clima, e justo hoje. Não dá pra fazer nenhum programa legal. Acho que ele tá correndo um pouquinho, não tá não? Com tempo ruim é bom redobrar os cuidados. Bom, pelo menos com a boca fechada desse jeito é sinal de que ele tá prestando atenção. Acho que já li em algum lugar que quando a chuva tá assim no começo é o momento mais perigoso pra quem tá dirigindo, alguma coisa sobre a pista ficar mais escorregadia, sei lá... Será que quebro o gelo e falo pra ele ir mais devagar? Deixa eu olhar o velocímetro: 65 km/h. Não é muito, mas chovendo talvez fosse bom redu...

– CUIDADO, GUSTAVO!!!

***

Até que enfim me tiraram daqueles trabalhinhos de corno lá na administração do Batalhão. Eles sabiam que não conseguiriam provar nada contra mim, mas ainda assim deram um jeito de me ferrar. Um mês grampeando papel e organizando pasta foi demais pra mim, eu tava quase pirando! Agora ficar nessa esquina, dentro dessa viatura e debaixo dessa chuva sem fazer porra nenhuma, só de plantão pela segurança do 'cidadão de bem', também é uma bosta! Dá um sono danado, inclusive acho que vou até dar uma relaxada... Pelo menos aqui tenho mais liberdade, vejo gente e posso aproveitar uma ou outra oportunidade que...

Um carro cruza a avenida, sobe a calçada e resvala no muro até parar.

Não é possível! Mal acabo de pensar e já cai um motorista bêbado no meu colo! É a minha recompensa, depois da picaretagem que fizeram comigo.

– Bom dia, cidadão!

– Bom dia, seu guarda. Nossa, o senhor não vai acredi...

– Desce do carro com a sua senhora e me dê a CNH e o documento do veículo.

– Tá certo... Aqui estão... Mas como eu ia dizendo, eu vinha tranquilo e de repente um vulto passou na frente do carro, eu desviei e acabei subindo a calçada...

Esse cara tá de sacanagem... Vai meter que viu um fantasma no meio da rua?

– Um vulto, cidadão?

– Era um animal, com certeza – disse a moça.

– Humm, sei... Bom, os documentos estão em ordem, mas infelizmente vou ter que multar vocês por excesso de velocidade, avanço de sinal e direção perigosa.

– O quê?!

– Isso é um absurdo, meu marido estava a 65, aqui o limite é 80, e o sinal estava aberto!

– Aberto para os pedestres, a senhora quer dizer, né?

– Não, pra gente!!

– Minha senhora, eu estava na esquina, vi bem o que aconteceu. O sinal estava fechado e seu marido avançou a quase 100 por hora. Por isso que perdeu o controle e subiu a calçada, se tivesse alguém passando estava morto. O resto é historinha.

– O senhor não pode fazer isso com a gente, eu não machuquei ninguém. Arranhei o carro todo no muro, já vou ter um prejuízo grande.

– Cidadão, o senhor ainda tem sorte que eu não estou com o bafômetro aqui, porque se estivesse o senhor com certeza estaria mais enrolado ainda. Isso é coisa de gente alcoolizada ou distraída, o que resulta em direção perigosa de qualquer jeito.

– Eu não bebo, senhor! – disse o motorista, indignado.

– Não bebe pouco, né?

– E o meu marido estava muito compenetrado no trânsito – disse Carol, lembrando-se de que ele estava calado e aparentemente atento, mas sem saber que seus pensamentos divagavam.

– Ah sim, deu pra ver! Seu marido é um santo, provavelmente. E como ele é tão boa pessoa, pode ser que eu alivie a barra dele...

Carol e Gustavo se entreolharam, entendendo a insinuação. Nesse momento, um senhorzinho que assistia à discussão e parecia um mero curioso apresentou-se.

***

Hoje o Átila está muito arisco, meu Deus. Devia ter saído pra passear com ele mais tarde, no fim do dia, quando ele já está mais cansado. Mas aí quem também estaria cansado seria eu. E agora ainda começou a chover... Também não tinha nada pra fazer em casa. Hoje é minha folga, mas em breve estarei aposentado, e é bom eu me acostumar, porque vida de aposentado deve ser assim mesmo. Tédio, dores pelo corpo, varrição de calçada, jogar dominó ou buraco e passear com o cachorro. Enfim, vou logo pra casa que é o melhor que eu faço... Eita, mas que ventania é essa! A chuva tá apertando... Já sei, vou dar um tempo ali naquela esquina, embaixo da marquise, esperar ela estiar. Pronto. Será que vai demorar a passar?

– Ei, Átila, sossega! Para quieto, Átila!

Essas motos passando deixam ele mais agitado e...

– Meu Deus, volta aqui, Átila!

Como ele se soltou dessa coleira, meu Deus?!

Átila atravessa a rua na frente do carro de Gustavo, que desvia num reflexo e sobe a calçada.

Meu Deus! Não fosse a perícia do motorista o Átila estaria morto agora. Ele atravessou bem na frente do carro. Agora eu pego esse cachorro safado

Depois de pôr a coleira no cachorro, o senhor viu o guarda se aproximando do carro. Foi até lá e, após acompanhar a conversa discretamente, resolveu interferir.

– Senhor policial, com licença. O casal está dizendo a verdade. Meu cachorro se soltou da coleira na esquina e avançou na frente do veículo – E dirigindo-se aos dois, completou – Fiquem tranquilos, eu vou pagar as despesas pelo conserto do carro.

– Não é tão simples assim, meu senhor! – interveio o policial – A conduta do motorista foi muito imprudente, e eu não posso deixar ele sair sem...

– A conduta do motorista salvou o meu cachorro. Tenho certeza que vi a situação melhor que o senhor, pois eu estava de pé na esquina e o senhor quase dormindo dentro da viatura. O sinal estava aberto e creio que ele estava numa velocidade até bem abaixo da permitida.

– É a minha palavra contra a sua! – desafiou o policial, dando a última cartada.

– Tudo bem, vamos pra delegacia, então. Será muito bom conversar com o delegado sobre o que ouvi da sua conversa com o casal. Hoje é minha folga, mas sou juiz há mais de 30 anos e estou acostumado com essas coisas...

Ilustração de Só em Goiás

Só em Goiás

Só em Goiás

Contando ninguém acredita. Mas vou contar mesmo assim. Contar como me senti uma palhaça naquele fim de julho. Mas calma, sem spoiler. Vamos começar do começo, e tudo começou quando meu pai, militar e portanto nômade, sentou-se à mesa diante da família e anunciou, sem mais delongas:

– Preparem as malas, vamos pra Goiânia.

Assim, seco. Até porque ele nem tinha bebido nada ainda, o jantar estava sendo servido. Eu não deveria me espantar, pois seria provavelmente a 23ª vez que meu pai era transferido devido ao trabalho, mas eu não conseguia me acostumar. Aliás, quando eu estava me acostumando a alguma cidade, lá vinha a notícia de que teríamos de nos mudar. Isso sempre me chocava, pois sofro de transtorno de ansiedade e qualquer alteração mínima de vida me tira dos eixos. Minha mãe, pelo contrário, não só não se importava como adorava quando isso ocorria. Era uma "cidadã do mundo", amava viajar e conhecer novos lugares, mesmo que para isso tivesse que fixar moradia em cada um deles.

E lá fui eu preparar tudo para seguir bela e formosa para um estado no qual nunca pisei, sem conhecer ninguém e começar tudo praticamente do zero. O pior era a faculdade. Tentar encontrar outra instituição na qual eu conseguisse me transferir de imediato, sem precisar trancar e aguardar o próximo ano, não era tarefa das mais simples. Mas por sorte estava se aproximando o meio do ano, então consegui concluir o quarto período de administração enquanto buscava uma nova universidade em Goiás para dar continuidade no segundo semestre.

Para minha surpresa, dessa vez não foi tão difícil e achei uma faculdade onde havia uma turma que iniciaria as aulas do quinto período no dia 19 de julho, uma segunda-feira. O único empecilho é que minha família só chegaria à capital goiana no sábado, dia 24, então eu perderia a primeira semana de aula. Para uma pessoa normal, nada de mais. Tanta gente falta nos primeiros dias, por que eu não poderia faltar também? Porque sou ansiosa, e já comecei a pirar com os pensamentos mais loucos.

Eu já tô indo pra uma cidade e uma faculdade novas, o que por si só já é um terror, e iniciando em uma turma que já existe. Ou seja, todo mundo já se conhece. E os poucos alunos novos que porventura estejam entrando agora, como eu, provavelmente já se enturmarão com os colegas e eu serei a única novata no dia 26 de julho! Já terão assistido uma semana inteira de aulas juntos, e quando eu pisar na sala todos os olhares serão para mim, a baixinha, gordinha, branca azeda sem graça com resquícios da adolescência em formato de espinhas na cara. Vou querer andar rápido pra encontrar logo um lugar pra sentar e deixar de ser o centro das atenções e é bem possível que eu tropece e quebre meus óculos, o que vai me impedir de acompanhar a aula. Até que não seria ruim, porque teria a desculpa perfeita pra fugir dali. Mas uma hora teria que voltar, e aí seria ainda pior, então o jeito era encarar.

E foi o que fiz. Encarei. Chegamos dia 24 em Goiânia e passei o fim de semana trancada dentro da nova casa, me preparando psicologicamente para a tortura que seria o primeiro dia de aula na segunda-feira. O MEU primeiro dia de aula, né? Porque os demais alunos já conheceriam todos os professores, disciplinas, horários, salas de aula e se bobear já estariam até entregando trabalhos valendo nota, os quais eu perderia. Meus pais tentaram me convencer a sair com eles no domingo, para darmos a primeira volta na cidade, mas recusei firmemente. Assustada como eu estava, não curtiria e ainda estragaria o passeio deles. Além disso, estava quente como o Saara, e eu que não ia me atrever a sair naquele sol de rachar pra chegar na aula vermelha como um camarão. Não ia dar munição para o bullying de meus futuros detratores.

Enquanto minha mãe saiu toda serelepe e falante com meu pai, que era o seu extremo oposto, austero e de poucas palavras, aproveitei o silêncio da casa para tentar me acalmar com algumas meditações guiadas. Normalmente elas me fazem bem, e eu de fato recomendo para quem é ansioso, nervoso, estressado, surtado ou só tem alguns parafusos a menos ou a mais. Porém, não é qualquer um que consegue me guiar em busca do nirvana. Hoje em dia tem muita gente que lê dois ou três livros e já acha que pode ser guru dos outros. E esses caras, em vez de me acalmarem, me irritam ainda mais.

"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho".

O problema é que o meu pai é um homem de muitos caminhos, e definitivamente eu não nasci para peregrinar.

"A paz está dentro de você".

Onde, se dentro de mim só sinto um frio na barriga ao pensar no primeiro dia de aula?

"Por mais longa que seja a caminhada, o mais importante é dar o primeiro passo".

Meu primeiro passo foi em direção ao banheiro, porque esse frio na barriga era sinal da diarreia que o nervosismo sempre me dá.

***

Enfim, chegou a segunda-feira, o meu temível 26 de julho. Dormi mal e parcamente, não consegui comer nada no café da manhã e fui para a faculdade com o ânimo de quem está indo para a prisão. No trajeto pude ver que, guardadas as devidas proporções, as ruas de Goiânia lembravam as do Rio de Janeiro, de onde eu vinha. Em ambos os casos, belezas naturais se misturam às da arquitetura urbana criada pelo homem. A diferença é que a cidade estava estranhamente vazia. Será que era sempre assim? Isso me distraiu por uns três minutos, no máximo, quando a lembrança de que em breve eu estaria em uma sala com 40 indivíduos desconhecidos me aterrorizou novamente.

Chegando à faculdade, me surpreendi com o estilo antigo da fachada, algo que remetia até ao gótico. Devia ser um edifício histórico, algo tombado, sei lá. Fui entrando e logo me esqueci da parte arquitetônica, porque não havia viva alma no local. Cheguei a um pátio, que desembocava em um corredor longo entre dois outros prédios, provavelmente os que abrigavam as salas de aula. Ao fim do trajeto, saí na praça de alimentação, igualmente às moscas. Tudo bem que estava cedo, as aulas começavam às 7h30 e eu havia chegado pouco depois das sete, mas mesmo assim muitos alunos deveriam estar chegando. Era só o que me faltava: depois de tanto medo de encontrar gente nova, agora meu medo era de estar sozinha naquele lugar imenso e silencioso.

De repente, uma voz envelhecida atrás de mim me fez saltar:

– O que você tá fazendo aqui?

Virei tremendo e me deparei com um senhor de no mínimo 80 anos, corcunda, com traje de zelador e uma vassoura na mão.

– Oi, bom dia. Eu vim pra aula – balbuciei.

– Aula? – repetiu o velho, franzindo a testa.

– É, ué... Aqui não é uma faculdade?

Ele deu uma gargalhada.

– Pelo sotaque você não é daqui, né?

Foi aí que desandei a pensar em voz alta e fazer o papel de palhaça que disse no início.

– Não, cheguei anteontem. Mas me explica o que tá acontecendo, por favor, perdi a primeira semana toda de aula, não quero me atrasar mais, se ninguém chegou até agora é melhor ainda, porque já vou pra sala e fico esperando, em vez de entrar com a sala cheia, aí fico lá no fundão e ninguém vai nem me ver, né? É. É isso. Então, onde é a minha sala, o senhor sabe?

O zelador estava de olhos arregalados. Quando parei de tagarelar, ele respondeu:

– Minha filha, as aulas de semana passada foram canceladas e só começam amanhã, porque hoje, dia 26 de julho, é feriado da fundação de Goiás!

Ilustração de Não Passarão

Não passarão!

Não passarão!

Diogo e Rafael haviam voltado do almoço há 15 minutos, e já estavam até trabalhando em suas mesas quando Armando chegou. Para variar, ultrapassara o generoso tempo de uma hora e meia concedido pela empresa para a refeição. Era uma boa companhia, que prezava pelo bem-estar e crescimento dos funcionários. Mas tem gente que nunca está satisfeita, e como se não bastasse o atraso, Armando ainda foi puxar assunto com os colegas.

– E aí, já souberam da última?

Rafael nem respondeu, compenetrado que estava em suas planilhas.

– Que foi agora, Armando? – indagou Diogo, sem muito entusiasmo.

– Temos mais um puxa-saco promovido à gerência. Quer dizer, dessa vez é UMA puxa-saco!

– Ah é?

– É. Sabe quem? Adivinha.

– Não faço ideia – respondeu Diogo, sem tirar os olhos do computador.

– A Ângela! Nova responsável de algum departamento aí, sei lá qual.

– Ah, que bom!

– Como bom? Por que bom? A mulher mal fez um ano na empresa e já é promovida? Quer dizer, vocês estão aqui há mais ou menos esse tempo também, mas vocês são competentes. Se fosse um de vocês, eu não diria nada... Mas a Ângela? Pelo amor de Deus... E eu, estou aqui há mais de cinco anos, conheço muito mais de todos os processos dessa empresa e não saio do lugar!

– Olha, Armando, não me leve a mal, mas eu tenho acompanhado a trajetória da Ângela e tenho uma opinião diferente. Se bobear, ela é mais competente que nós três juntos.

– O quê? Você tá de brincadeira, né Diogo? Ouviu o que esse cara disse, Rafael?

– Malditas planilhas! Desde a manhã essas fórmulas estão me deixando maluco! – E voltando-se a Armando – Hã? O que foi que você disse?

– Teu amigo aí, Diogo, falando que a Ângela é mais competente que a gente. Tem cabimento uma coisa dessa?

– Tem sim. Ela é gente boa e inteligente, tu que é um babaca...

– Vocês só podem estar de sacanagem. Ou melhor, devem estar é a fim de fazer "sacanagem" com ela, né? – Armando forçou uma gargalhada – Já entendi, já entendi... Mas não é pra mim que vocês têm que ficar bajulando essa mulher, e sim pra ela. E acho que não vai funcionar, viu? Afinal, como vocês acham que ela conseguiu essa promoção? Alguém da cúpula já passou à frente de vocês!

– Quero morrer teu amigo, viu? Aliás, melhor não. Ter amigo invejoso deve ser pior que mexer com Excel! Agora vai trabalhar e me deixa em paz que tenho mais o que fazer...

Rafael tinha mais de 1,90 m e era bem musculoso, o que intimidava o franzino Armando, que ficou calado. Diogo largou o teclado e girou na cadeira, disposto a encerrar o assunto:

– Armando, analisa comigo. A Ângela tá aqui há um ano, como você falou, e nunca faltou ao trabalho nem chegou atrasada. No seu caso, é mais fácil contar os dias que você chega no horário do que o contrário. Nas reuniões, ela sempre é pró-ativa, demonstra interesse em resolver os problemas, não só em apontá-los, como você faz, e dá sugestões sempre inteligentes. Sem contar que, no último evento da empresa, ela esteve à frente de tudo e conduziu com maestria. Tenho certeza que o novo cargo foi um reconhecimento de tudo isso.

– Você é muito ingênuo, isso sim. É lógico que ela tá dando pra alguém lá de cima! Só não vê quem não quer!

Ao virar-se para se dirigir à sua mesa, Armando deu de cara com Ronaldo, seu chefe imediato, que o chamou à sua sala. Uma vez lá, o executivo listou uma série de atos desabonadores de Armando, e disse que aquela intriga semeada contra uma colega de trabalho fora a gota d'água. Assim, ele estava sendo desligado da empresa, devendo arrumar suas coisas e passar no departamento pessoal.

Os protestos de Armando quanto àquela decisão não funcionaram. Até porque, ele não tinha argumentos. De fato se acomodara no cargo, e, além de não buscar a própria evolução profissional, tornara-se uma pessoa desagradável e tóxica ao ambiente profissional. Após limpar sua mesa e começar a caminhar em direção ao DP, Rafael disse:

– Dê lembranças à Ângela!

– Que ela se exploda. Nunca mais vou ver essa vaca!

– Vai sim. Ela é a nova chefe do departamento pessoal, otário!

Ilustração de Versões

O diário de um fraco

O diário de um fraco

Segunda-feira, 14 de junho

Hoje eu dei uma passada no shopping pra comprar uma capinha de celular, porque a minha atual já era. Enquanto caminhava por um dos corredores, passei pela porta de uma loja onde havia duas vendedoras conversando. O momento em que passei por elas me permitiu ouvir apenas este fragmento do diálogo:

– Ah, minha filha, você é muito boazinha. Eu já tinha metido a mão na cara dela!

Já ouvi coisas assim muitas e muitas vezes, de pessoas dos mais diversos tipos. "Comigo ninguém se mete à besta". "Comigo o buraco é mais embaixo". "Ahhh, se fosse comigo!". É impressionante a quantidade de gente que gosta de posar de valentão, e não só homens, como essa vendedora mostrou. Qual a necessidade disso, de mostrar ao mundo essa aparência corajosa e implacável? Será que quem tem esse tipo de postura realmente imagina que pode resolver tudo na porrada e se dar sempre bem assim? Quem essas pessoas pensam que são, o Superman? Elas não consideram que um dia podem encontrar um Batman, que as coloque no lugar delas? (Apesar de que o Batman só ganha do Superman com um roteiro generoso a seu favor, hahaha). Sim, porque é tanta gente agindo desse modo, com tanta "valentia", que a probabilidade de encarar alguém que pensa da mesma forma é grande, e aí alguém vai se dar mal!

Pra mim, boa parte dessa "coragem" é só fachada. Creio que essas pessoas têm a necessidade de se afirmar perante o mundo, e até para si mesmas. Só não entendo a razão de isso ser tão importante para elas. Eu, por exemplo, me considero um cara extremamente calmo, e pra me tirar do sério alguém tem que se esforçar muito. E mesmo quando conseguem, ainda assim eu tento resolver as coisas de forma pacífica. Isso me lembra que tem pessoas que afirmam serem como eu, tranquilas. Mas não é bem assim, porque depois elas dizem: "Eu dou um boi pra não entrar numa briga... mas dou uma boiada pra não sair!". Então, no fim das contas, são do tipo "valentonas" também, apenas são mais atrasadas em relação às outras, que por qualquer coisa já querem sair no sopapo. Aí é até preferível ser mais impulsivo mesmo, porque dizem que quem dá o primeiro golpe sai em vantagem, né?

Sei lá. O fato é que nunca gostei de briga, e acho ridículo essa coisa de querer aparentar a todo custo uma coragem inabalável, sobretudo quando não se tem de verdade. Nesse caso, trata-se de uma atitude hipócrita e arriscada, pois pode chegar o dia em que alguém verdadeiramente "valente" encare essa pessoa, que, sem o real ímpeto de reação, terá desmascarada e exposta toda a sua covardia.

Covardia... Meu Deus, será que na realidade eu não me "imponho" perante os outros não por ser calmo, e sim por covardia? Não, acho que não... De fato eu sempre tive um temperamento sereno... Mas o meu físico de filé de borboleta também não me estimula em nada a ser corajoso... Bem, sendo covarde ou não, pelo menos não aparento ser quem eu não sou. Ajo como acho que tenho que agir em cada situação, respeito a todos e, mesmo quando me sinto ofendido, prefiro resolver no diálogo. E em alguns casos, até deixo pra lá, ainda que eu esteja sendo prejudicado, pelo meu bem-estar mental – e físico...

(E se alguém ler esse diário algum dia, hein? O que tem de fofoqueiro aqui nessa república onde eu vivo não é brincadeira, não...)

Claro que também não sou otário, né? Se no papo não adiantar, também não dá pra achar que vale aquela máxima "Mais vale um covarde vivo do que um herói morto". Parto pra dentro!

Uma novela policial sem igual!

Amor, ação, suspense e emoção: A Pequena Morte vai te prender e surpreender.

Capa do livro A Pequena Morte

Bianca e Álvaro são dois jovens recém-casados que decidem passar a lua de mel em Monte Novo, cidade serrana do Rio de Janeiro. O pequeno município é destino frequente de casais apaixonados, e para Bianca o principal atrativo era o inverno – segundo ela, "a melhor estação para viver um romance".

Após a noite de núpcias em uma pousada local, no entanto, tudo muda de forma trágica. Álvaro, um obstinado praticante de exercícios físicos, sai para sua corrida matinal e ao retornar ao quarto do casal encontra a sua esposa morta, com indícios de ter sido assassinada. Em uma região marcada pelo clima de amor, o acontecimento logo choca todos os habitantes.

Entra em cena então o inspetor Tarcísio, que a princípio suspeita de latrocínio, uma vez que havia avarias na janela e alguns objetos tinham sumido. Mas à medida que as investigações avançam, uma série de estranhas descobertas e novos personagens mostram que nada é tão simples como parece.

A Pequena Morte é uma novela policial com boas doses de suspense e ação, que convida os fãs do gênero não só a adivinhar o suposto assassino, mas também a refletir sobre questões perturbadoras da psique humana.

Ficha técnica

  • Editora: Via Escrita; 1ª edição (2024)
  • Idioma: Português
  • Brochura: 90 páginas
  • ISBN: 978-85-67831-17-6
  • Dimensões: 15 x 21 cm
  • Peso: 200 g
Leia o primeiro capítuloCompre o livro físico ou digital

16 de julho de 2017

Domingo, 8h38

A mente de Álvaro estava um turbilhão. Seus pensamentos relembravam os acontecimentos das últimas horas, enquanto realizava a sua corrida matinal pelas ruas arborizadas de Monte Novo, aprazível cidade serrana do Rio de Janeiro onde passava a lua de mel com Bianca Maria. Haviam se casado na noite anterior após dois anos de namoro, entre idas e vindas. O pequeno município era destino frequente de casais apaixonados, ideal para quem deseja alguns dias de tranquilidade, longe do tumulto das grandes metrópoles. Para Bianca, no entanto, o principal atrativo era o inverno – segundo ela, “a melhor estação para viver um romance”. Por este motivo, exigiu que os sete dias da viagem nupcial fossem passados em Monte Novo, um dos pontos mais frios do estado.

A relação custo-benefício do local realmente representava um ponto positivo, sobretudo devido aos enormes gastos que teve no casório, mas Álvaro preferia ter feito um esforço a mais e viajado para um lugar melhor. Se a questão era o frio, poderiam ir para alguma cidade ao sul do país. Ou, quem sabe, pesquisar um pacote promocional para Bariloche, Santiago, Patagônia, sei lá... Ao menos sairiam um pouco do Rio de Janeiro, onde residiam desde sempre. Mas não houve argumento de Álvaro que a fizesse mudar de ideia, e lá foram eles para Monte Novo mesmo.

Chegaram à Pousada Recanto do Monte na madrugada de sábado para domingo, cansados da grande festa que promoveram em um clube carioca, após a celebração do casamento em uma tradicional igreja do centro do Rio. A hospedaria não era grande, mas era como a própria cidade de Monte Novo: bonita, aconchegante, agradável e simpática. O mesmo não se podia dizer do atendente que os recebeu às quatro da manhã. Ao vê-los chegar, lançou-lhes um olhar frio, por meio de uma fisionomia fechada, logo após interromper bruscamente o manuseio do computador da recepção.

À primeira vista, Álvaro imaginou que talvez o rapaz tenha ficado com raiva por chegarem àquela hora, atrapalhando um possível cochilo no balcão. Mas não fazia sentido, já que aparentemente ele estava operando as câmeras de segurança da pousada, conforme observou no monitor, e ainda ouvindo música. Em um canto da mesa, a voz de Alexandre Pires soava de uma caixinha de som: “Tô fazendo amor / com outra pessoa / mas meu coração / vai ser pra sempre teu”.

O recepcionista deu um “bom dia” com cara de poucos amigos e, fosse o que fosse, Álvaro tratou de lhe entregar os papéis da reserva o mais rápido possível, a fim de pegar logo as chaves e deixar o funcionário em paz. Os quartos tinham nomes e, ao receber a liberação para subir, Bianca percebeu que o aposento indicado não era o mesmo que ela havia reservado pela internet. Ao questionarem, a resposta foi seca:
– Houve um imprevisto e tivemos que alterar. Mas não importa, o quarto tem as mesmas características do outro que os senhores reservaram. Bom dia.
– Pra você também, Luan – respondeu Álvaro, lendo o nome do atendente em sua lapela.

Ele não gostou das boas-vindas, ou melhor, da falta delas, mas Bianca ria à toa. Estava visivelmente feliz, e mesmo com a frieza do atendimento seu comportamento denotava a sua empolgação, acentuada também, talvez, pelo teor etílico um pouco elevado em seu sangue pós-festa. E da mesma forma respondeu ao funcionário, deixando o hall rodopiando e cantarolando junto com a canção:
– Bom dia, Luan, bom dia! A verdade é que eu minto / que eu vivo sozinho / não sei te esquecer!

De fato, o quarto não devia nada ao que tinham escolhido anteriormente. E mesmo com o cansaço e o adiantar da hora fizeram amor, como não poderia deixar de ser. Após algum tempo, caíram no sono, como também era previsível.

Mas Álvaro acordou cedo e não conseguiu dormir mais. Ficou rolando na cama em meio a muitos pensamentos, alguns deles incômodos. Afinal, casar pressupõe mudanças sensíveis. Após repassar quase toda a sua vida olhando para o teto, tomou uma súbita decisão. Minutos depois, deixou Bianca deitada e saiu para correr, por volta das 8h.

***

Após mais de meia hora se exercitando e pensando, meio sem rumo pela cidade, Álvaro resolveu voltar para a pousada. Ao chegar ao lobby, percebeu que havia mais funcionários andando de um lado para o outro, provavelmente os que chegaram pela manhã para trabalhar. Mas quem ainda estava no balcão da recepção era o tal Luan, a quem dirigiu uma saudação. O atendente respondeu entre os dentes, aparentemente se preparando para ir embora. Estava com uma aparência ainda mais estranha do que quando chegaram de madrugada. Dessa vez, o olhar que Luan lançou para Álvaro parecia... de ódio? “Esse realmente não teve uma boa noite...”, pensou, encaminhando-se ao quarto.

Lá chegando, observou Bianca na exata posição em que a havia deixado. Sua expressão facial estava tensa. Aproximou-se e, ao beijá-la, não obteve reação alguma de sua parte. Segundos depois, um forte grito fez-se ouvir por toda a pousada. Funcionários correram para o local de origem do som e, depois de várias batidas na porta sem resposta, entraram usando a chave mestra. Álvaro, aos berros, chorava copiosamente com Bianca nos braços, onde jazia o corpo inerte daquela que havia sido sua esposa por menos de 24 horas.

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